O Tema
Quando observamos, em períodos especiais da vida da sociedade, uma mudança no tema das conversas dos pacientes, temos a plena consciência de que a mudança da conversa de pessoal para focada na sociedade não é o desvio de interesse, nem tampouco de desvio do assunto cotidiano da vida deste paciente. A política, no âmbito da terapia, é apenas um TOQUE COSMÉTICO.
Explicando melhor. Falando de si, ou da sociedade, ou da situação política, o indivíduo está falando de si mesmo o tempo todo. Estando os olhos em posição tal que olham para fora do ser, e não para o seu interior, ele entende o mundo pelos reflexos dos olhares dos outros. Uma dos fatos que confirmam tal assertiva é o incômodo frequente e significativo que a pessoa sofre com a OPINIÃO DOS OUTROS.
A maior vitória do indivíduo, é ter uma consciência tão honesta de si mesmo, que a opinião dos outros não prevalece mais tão soberana em sua vida. Daí ele obtém sua redenção psíquica e psicológica. Ele até entende que a opinião do outro pode ser correta, mas não se guia obrigatoriamente por ela, mas pela sua convicção mesclada à sua aspiração.
Por exemplo. A pessoa comenta com um colega que quer fazer alpinismo. Ele lhe diz: "é muito perigoso". A pessoa, então, coleta esta opinião e diz: "vou arriscar". A opinião dop outro não é como uma ordem incondicional. É um comentário, é um conselho, uma forma de ver a situação, mas ela não é soberana sobre a vida da pessoa, e nem o pode ser.
No texto anterior tratei dos cuidados ao se dar uma opinião. Mas como nem todas as pessoas observam estes cuidados, é preciso aqui colocar as formas de se prevenir dos efeitos nefastos das opiniões de terceiros, muitas vezes apoiadas em:
- Traumas pessoais;
- Compromissos inconfessáveis;
- Desvios de conduta(inveja, medo excessivo);
- Falta de conhecimento;
- Herança de personalidade;
- Herança de opinião;
- Confusão de sentimentos;
Destes, o mais perigoso, do qual sinto urgência em falar sobre é a ...
Herança de Personalidade.
Nossa personalidade é o nosso escudo para enfrentar o mundo. Mas o que eu estou querendo dizer ? Será que estou sugerindo que viver no mundo é tão perigoso que, cedo, precisamos construir um escudo para viver ?
Observe uma criança, até cerca de 4 anos (conferir a maravilhosa obra de Piaget a respeito dos marcos de avanço do desenvolvimento mental da criança). Ela se expõe, chega de peito aberto, é ingênua, não tem vergonha de dizer o que pensa, e nem de perguntar a respeito daquilo que desconhece, não tem orgulho, não tem soberba. É quase pura.
Mas após esta idade, começa a surgir um pouco de vergonha, pois a criança sabe que está sendo observada pelos outros. Daí surge a necessidade de construir barreiras para se proteger dos comentários e opiniões dos outros. E a primeira barreira que ela vê mais acessível é a das regras. É melhor obedecê-las do que contrariá-las e passar vergonha na frente dos outros.
Existe uma forma de lidar com o mundo, que só será descoberta mais tarde, quando existe desenvolvimento mental para isto, e que primeiramente pode vir na adolescência. O indivíduo pode, dependendo do seu grau de inteligência social:
- Criar as próprias regras de conduta;
- Seguir as regras de conduta já criadas por alguém mais "descolado" que ele;
Os pais da geração dos anos 2000 vão entender prontamente disto que estou falando. Esta geração vem querendo criar suas próprias regras de conduta baseadas ( não tenho nenhuma vergonha de dizer ):
- Adesão às redes sociais;
- Adesão ao consumo de maconha nas chamadas resenhas;
- Vida paralela nos videogames;
- Sexo em situação de quase relação física estável;
Não se escandalizem com estes fatos, pois são a pura verdade. Não é culpa soberana das famílias, mas sim de uma sociedade que não só não apóia como desestimula providências enérgicas, até por meio de leis.
Em termos comportamentais, as Leis não podem invadir os ritos e costumes da sociedade, a não ser que estes ritos e costumes ameacem a sobrevivência da sociedade. Em nosso país houve (e digo com toda a consciência e experiência de mãe) uma invasão nociva nos assuntos do núcleo familiar, pais e filhos.
Criou-se uma VERDADE COLETIVA de forma de vida cotidiana que não respeita opiniões individuais. Para se adaptar, pois o indivíduo tem que se defender, ideologias e filosofias coletivas foram sendo empurradas para cima dos jovens. Isto é claro demais, e foi percebido. Criou-se um modelo aceitável de personalidade, não só para evitar problemas, como para tornar as coisas mais fáceis e, controlando as pessoas, promover consumo e manter o poder político.
A maior parte das pessoas está falando do mesmo jeito, encarando problemas do mesmo jeito, e forçando uns aos outros a aceitar as novas verdades que alimentam um ciclo de novas ideologias, novas aceitações e novas ideologias sobre estas.
A quantidade de pacientes que herdaram a personalidade imposta do século XXI, uma imagem de correção politicamente correta, me assombra. Parece que estou orientando pessoas iguais. Falta opinião, falta estratégia pessoal de avanço, faltam ideias, faltam ações. Estou perplexa.
Voto é uma opinião
Eu disse que o tema mudou no consultório, mas que é apenas uma forma de expressão individual. O ser nunca pára de falar sobre si mesmo, alias isto é justamente o caminho para a aceitação individual (não digo cura).
A maior parte da conversa, nestes tempos de conturbação política, é "aquele falou isso", "esse outro falou aquilo" ou "olha só o que o candidato disse". Isto nada tem a ver com política, seja com os neuróticos já adaptados, seja com os neuróticos em tratamento. Tem a ver com ele mesmo, com a sua aceitação na sociedade. Existe, é claro, um elemento determinante. Como a pessoa não sabe qual será o resultado da eleição, ela, não se sentindo ainda adaptada à sociedade, segura de si, ela fica angustiada em relação a quem escolher.
Já começo a receber pacientes que brigaram com amigos e colegas, devido ao seu posicionamento político. Vamos traduzir o político pelo social, pois o que conta para o indivíduo é a sua posição na sociedade. Depois da eleição, a pessoa vai ter que conviver com o resultado por um longo tempo, pelo menos 4 anos. Algumas amizades poderão ser permanentemente perdidas.
Um derivado da herança de personalidade é a ...
Herança de opinião
Aqui já entrou a ideologia. Os efeitos são mais nefastos. A pessoa não vai só repetir comportamentos, mas até os discursos da PERSONALIDADE PADRÃO. A personalidade padrão é um ícone, uma pessoa eminente, conhecida, já aceita. Imitar as opiniões de uma pessoa já aceita, cultuada por uma grande parcela da sociedade, é UM DOS CAMINHOS MAIS FÁCEIS PARA A ACEITAÇÃO SOCIAL.
Então você deve estar compreendendo muito bem o que está ocorrendo há anos em nossa sociedade. Por preguiça, as pessoas estão praticamente passando em uma LOJA VIRTUAL e dizendo:
Me dê ai um cartão com uma opinião
Só que cada cartão não tem uma opinião diferente. Milhares ou milhões vem com a mesma opinião. Um dos balcões de opinião é o Facebook, outro é o Youtube, outro o Whatsapp.
E quem produz estas opiniões ? Os autores das ideologias criadas para controlar as pessoas.
Aviso
O leitor compreenda que pode estar tendo a existência de um clone da Personalidade Padrão, que pode estar fazendo o papel de mero autômato, e que pode estar tendo sérios prejuízos em sua personalidade. A sonhada adaptação rápida à sociedade pode se transformar em um fator de autodestruição.
Não lute pelas sua opiniões, e sim pelo aparelhamento mental, através do verdadeiro conhecimento filosófico, para compor com sabedoria os seus próprios traços de personalidade.
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